Zétesis

A alma do texto

De onde vem esse querer escrever? Já não pode ser simplesmente explicado por um desejo ou uma paixão. Gostando ou não, estou aqui escrevendo por algo como uma devoção. Será devoção à verdade? Mas para isso existe o estudo. Talvez seja uma devoção à beleza, algo que se ordena à contemplação? Mas a contemplação não necessita de palavras. Então, por quê?

Talvez como um recurso mnemônico, para que eu me lembre do universo por meio de sua síntese, desde que nunca me esqueça de que ele, o texto, não passa de um símbolo. Ou quem sabe seja para inspirar alguém — inclusive eu mesmo — a olhar para o mistério. Pois o texto não vem acompanhado da vida que o criou.

A vida sou eu. Agora, enquanto escrevo, ele está unido à minha vida, ao meu querer, ao meu teclado. Quem move as letras, as palavras, as frases, sou eu. Ponho e removo quando quero e onde quero. Brinco com a tinta no papel como uma criança. Mas, quando terminar de escrever, o texto estará morto.

Ele só está vivo enquanto permanece inacabado, isto é, enquanto ele participa da minha vida quando eu o escrevo. Após isso, torna-se como um animal selvagem empalhado, exposto à exibição no museu. É o produto de uma alma irascível, mas agora é apenas uma figura imóvel, inofensiva. O espectador vê apenas a carcaça. Mas quem o viu vivo, quem o capturou e quem o matou, esse sabe o que contempla.

Então, embora sirva para entreter os visitantes, talvez a peça de museu também sirva para inspirá-los a partirem para uma aventura na selva da vida real, com todos os seus perigos, sem garantia alguma de sucesso, mas cheios de esperança do encontro com a vida.

Se é assim, então não posso dizer que o texto está morto de verdade. Ele ainda participa da minha vida como uma flecha lançada, que voa para o alvo, mas não pode voar sozinha por si mesma. O movimento da flecha não pode se explicado por ela mesma, mas por quem a atirou.