Zétesis

A ética do coração inquieto

Neste texto, empregarei a palavra ética para designar a investigação da vida bem-aventurada e dos meios de realizá-la. Essa definição parecerá estranha, inadequada ou até mesmo incompreensível para a maioria das pessoas. O motivo é que esta é uma daquelas palavras que, embora usada na filosofia para falar de certas qualidades humanas, acabou se banalizando à medida que adquiriu novas conotações nos discursos políticos, comerciais e cotidianos.

Hoje, emprega-se a mesma palavra tanto para falar dos mais elevados ideais de uma nação quanto para fofocar e julgar a vida dos outros. A palavra passou a designar tantas coisas diferentes que já não é evidente aquilo a que originalmente se referia.

Essa situação produz uma consequência ainda mais grave. O uso impreciso de uma palavra não afeta apenas a linguagem comum. A confusão alcança também os círculos filosóficos, religiosos e intelectuais, nos quais raramente encontramos explicações suficientemente claras acerca daquilo que seja, afinal, uma vida plenamente realizada. Consequentemente, torna-se mais difícil reconhecer essa inquietação e responder a ela de maneira adequada.

Contudo, independentemente do uso que se faça da palavra ou do grau de compreensão que se tenha dela, a realidade à qual os antigos filósofos se referiam não deixou de existir. Uma realidade não desaparece porque esquecemos seu nome ou porque deixamos de prestar atenção nela.

Geração após geração, em todo tempo e em todo lugar, o ser humano continua ansiando por uma vida mais autêntica e mais profundamente realizada. Contudo, são raros os que se consideram felizes. A maioria das pessoas parece experimentar justamente o contrário. É precisamente essa experiência que a investigação ética procura compreender.

Para abordar isso de maneira adequada, sinto que devo começar observando aquilo que ela tem de mais problemático: essa inquietação ansiosa que dilacera o meu coração. Seria muita insensibilidade e desrespeito começar qualquer discurso sobre ética proclamando que o “fim último do homem” é este ou aquele, conforme ensinou tal líder religioso, tal líder político ou qualquer outra celebridade. Por “fim último” quero dizer qualquer definição de felicidade, porém formulada de maneira abstrata, supostamente infalível e universalmente aplicável a todas as pessoas sem distinção. Assim procedem os insensíveis: fazendo abstração do coração dilacerado, assumem o “fim último” como se fosse uma premissa autoevidente, e daí seguem deduzindo, a torto e a direito, o que todos deveriam fazer para serem felizes. Esse método fracassa justamente porque ignora aquilo que deveria esclarecer.

Isso não quer dizer, em hipótese alguma, que tal fim último não exista. Não se trata disso. Trata-se apenas de uma questão de respeito ao coração e à inteligência. Na verdade, não é sem razão que algumas exposições da ética partem do fim último como premissa. Quando se trata da ação, isso é perfeitamente compreensível. Toda ação, qualquer que seja, visa à realização de um fim, seja este a obtenção de um resultado ou, em certos casos, a própria realização da ação. Nesse sentido, o fim é necessariamente uma premissa, ou seja, um princípio racional da ação consciente.

Porém, assumir o fim último como premissa só pode fazer algum sentido para quem tem muita clareza dos anseios profundos do próprio coração. Caso contrário, se falta esse entendimento, o fim último não passa de um conjunto de palavras. Pode ser facilmente repetido da boca para fora, mas não será capaz de orientar concretamente a vida de ninguém. Essa a situação que observamos em nossa cultura.

Pelo contrário, a premissa deste meu discurso não será o “fim último”, mas o coração inquieto; e o meu método não será dedutivo, mas meditativo. Quero caminhar junto com esse coração o tempo todo e ir com ele aonde sua inquietação nos levar. Não importa onde vamos chegar. Importa apenas que eu não o abandone ao longo do caminho, lembrando-me, o tempo todo, de que estou falando de um ser humano.

O meu método, portanto, consiste em dialogar com o coração: deixá-lo falar, ouvi-lo com atenção e procurar compreender aquilo que ele tanto anseia. Na prática, isso significa prestar atenção à própria afetividade, pois é nela que o coração parece manifestar mais claramente suas exigências: alegria, tristeza, esperança, desespero, audácia, medo, amor, ódio e tantas outras paixões. Frequentemente reagimos a essas paixões de maneira automática, procurando satisfazê-las ou afastá-las sem antes compreendê-las. Raramente paramos para escutá-las com atenção. Sem essa escuta, porém, a investigação torna-se vã e, consequentemente, qualquer ação que dela resulte não poderá conduzir à bem-aventurança.

Depois de ouvir, poderemos avaliar se essa inquietação pode ser satisfeita por algum bem digno do nome de “fim último” ou se ela não passa de uma ilusão. Talvez descubramos algo capaz de dar esperança ao coração desesperado, ou talvez algo capaz de desesperar o coração esperançoso. Seja como for, quero apenas que o resultado dessa busca seja uma total desilusão, ou seja, a dissolução de todas as falsas expectativas a respeito da vida.

Então, vamos ao encontro desse coração dilacerado e examinemos seu sofrimento. Por que ele se frustrou? Por que está inquieto? O que lhe faltou? Prestar atenção às frustrações ajuda a compreender justamente aquilo que faz oposição àquela vida feliz à qual aspiramos. Pouco importa, por enquanto, o nome que damos a essa vida. Importa apenas que tenhamos coragem de olhar para o nosso próprio sofrimento com atenção, sinceridade e serenidade.

Mas o que é, afinal, a frustração? A frustração surge quando a realidade não corresponde à expectativa. Algo nos parecia bom, desejável e satisfatório. Depositamos nele nossa esperança. Esperávamos encontrar ali alguma forma de realização. Entretanto, aquilo que esperávamos não se concretizou, e o resultado foi tristeza, dor e sofrimento. Então, perguntemos ao nosso coração: o que era que você esperava? O que não aconteceu? O que lhe foi prometido e não foi entregue? Talvez a resposta revele alguma pista sobre aquilo que ele realmente procura.

Quantas vezes ficamos decepcionados com outra pessoa? Esperávamos ser amados, compreendidos, reconhecidos ou recompensados, mas aconteceu o oposto. Frustramo-nos por ter condicionado nossa felicidade àquilo que estava sob o poder de outra pessoa.

Quantos planos e projetos fracassam por causa de imprevistos, acidentes ou desastres naturais que escapam completamente ao nosso controle? Situações desse tipo não são culpa de ninguém. É simplesmente a natureza acontecendo e seguindo seu curso. Nesse caso, a frustração não depende da má vontade de outra pessoa, mas do fato de termos depositado nossa esperança em coisas naturalmente sujeitas à incerteza.

Quantas vezes, porém, após conquistarmos nossos sonhos, sentimos medo de perdê-los de repente? Ficamos perturbados não porque estamos frustrados, mas por causa da fragilidade do bem que conquistamos. A maioria das pessoas considera que uma boa qualidade de vida depende de dinheiro, saúde, lazer e amigos. Porém, todas essas coisas estão sujeitas à impermanência. Investimentos dão prejuízo. Negócios vão à falência. O dinheiro é desvalorizado pela inflação ou, então, é roubado e, por fim, acaba. A violência destrói a paz. A doença chega acompanhada de suas dores. Nossos entes queridos envelhecem e morrem. Por fim, nossa própria vida está sujeita à morte. Então, a frustração nasce da perda daquilo que desejávamos que durasse para sempre.

Por fim, depois de nos decepcionarmos tantas vezes e de tantas maneiras diferentes, somos inevitavelmente abatidos pela depressão e pelo desespero e passamos a questionar o sentido da nossa própria existência. O coração inquieto já não sabe o que procurar. Não sabe onde procurar. Não sabe sequer se existe algo capaz de satisfazê-lo, isto é, algo que possa verdadeiramente preencher sua vida com sentido e realização.

Se levarmos a sério o testemunho do coração inquieto e examinarmos atentamente as causas de suas frustrações, ele também nos revelará aquilo que exige da experiência humana para que a vida possa ser considerada verdadeiramente plena. Afinal, toda frustração está ligada a uma expectativa implícita. A primeira delas é que ele não quer mais ser frustrado por nada. Mas, para isso, precisa encontrar um bem que não dependa da ação de outras pessoas nem das incertezas da natureza para ser obtido; um bem que, uma vez conquistado, não possa ser perdido; e um bem que seja evidentemente bom para a consciência, de modo que ela nunca se sinta perdida diante da vida e da própria existência.

Em outras palavras, o coração parece exigir algo que dependa apenas do próprio indivíduo e que, por isso mesmo, não possa ser frustrado por circunstâncias externas. Entre as condições que ele parece requerer para a felicidade, quer algo que dependa fundamentalmente de si mesmo, bem como uma consciência lúcida quanto aos próprios fins e também quanto aos meios necessários para alcançá-lo.

Estamos falando, portanto, de algo que se assemelha a uma qualidade interior da pessoa. É como se o coração exigisse de nós um certo modo de ser, pois todas essas condições apontam para algo que deve ser cultivado no próprio indivíduo. Se dermos crédito a esse testemunho, começamos a compreender por que a investigação que estamos realizando recebeu, desde a Antiguidade, o nome de ética. A palavra ética deriva do termo grego \textit{ethos}, que significa caráter. Trata-se precisamente de uma qualidade que ele desenvolve e cultiva em si mesmo.

Mas ainda não sabemos exatamente que caráter é esse, nem mesmo se existe algo capaz de satisfazer todas essas exigências do coração. Até aqui, sabemos apenas o que ele não quer. Para descobrir o que realmente deseja, um critério puramente negativo não basta. Conhecer o que o frustra não é o mesmo que conhecer o que o satisfaz. Será preciso que esse bem se apresente ao próprio coração como verdadeiramente desejável, de tal modo que ele o reconheça não apenas como incapaz de frustrá-lo, mas também como digno de seu amor.

O que poderá fazer o coração se já não possui nada que o satisfaça plenamente? Terá de buscar. Terá de examinar cada proposta de felicidade que se apresente diante dele. Terá de perguntar, antes de tudo, se realmente o deseja. E, caso o deseje, deverá perguntar ainda se não se trata de mais uma ilusão, de mais uma expectativa destinada à frustração. O coração impôs suas condições, mas se não encontrar aquilo que anseia, restará continuar buscando diligentemente. Afinal, não pode concluir que a felicidade não existe apenas porque ainda não a encontrou. Em vez disso, deverá examinar cuidadosamente as próprias exigências e perguntar se são legítimas, em que medida o são e em que medida não são.

Assim como essas inquietações acompanham a humanidade desde sempre, também a acompanham aqueles que procuraram compreendê-las, superá-las e, em muitos casos, afirmaram ter encontrado um caminho para uma vida plenamente realizada. Seria imprudente ignorar o que eles têm a dizer, mas também seria imprudente criar novas expectativas diante de pessoas que afirmam possuir esse conhecimento. Caso contrário, estaremos novamente traindo nosso coração, expondo-o aos mesmos ciclos de sofrimento e frustração, ao condicionar nossa felicidade a outras pessoas. Escutemo-los, porém, com o coração aberto, mas também vigilante.

As pessoas que mais frequentemente afirmam conhecer essas coisas são aquelas reverenciadas pelas tradições religiosas ou filosóficas. Contudo, seus ensinamentos e suas práticas costumam ser profundamente discrepantes e, quase sempre, contraditórios entre si. Por que pessoas aparentemente tão realizadas chegaram a conclusões tão diferentes acerca da felicidade? Mas essa é apenas uma impressão superficial. O que realmente causa perplexidade é que, apesar de suas diferenças, essas pessoas raras parecem realmente ter encontrado uma vida profundamente satisfatória. Isso se revela pela serenidade e pela resiliência com que enfrentam justamente aquelas adversidades que normalmente frustram os corações inquietos. Por isso, quero ouvir o que elas têm a dizer.

Apesar de suas diferenças teóricas e práticas, o que elas propõem são respostas plausíveis às exigências do coração. Todas essas respostas parecem ser expressões de quatro atitudes fundamentais.

Em resposta à inquietação que surge quando condicionamos nossa realização aos resultados, ao reconhecimento dos outros ou às incertezas do mundo, alguns afirmam que a felicidade se encontra na realização de uma ação tão rica em significado e tão profundamente identificada com o bem que sua própria realização já constituiria plena satisfação para o agente. Não é difícil reconhecer pessoas cuja serenidade parece nascer da firme disposição de fazer o bem, mesmo quando isso exige grandes sacrifícios ou não produz qualquer reconhecimento. Eles demonstraram, na prática, que a felicidade deles não dependia dos resultados da ação, nem do julgamento dos outros, nem de qualquer circunstância externa, mas de fazer o bem simplesmente porque o bem merece ser realizado.

Em resposta às inquietações que surgem da solidão, da indiferença, do desprezo, do ódio e de tantas outras dificuldades presentes nas relações humanas, existem aqueles que afirmam que a solução está no encontro com um amor que não possa falhar. O coração anseia por ser amado, compreendido e acolhido de maneira incondicional. Por isso, muitas tradições religiosas e espirituais ensinam que existe um ser superior capaz de conhecer, amar e acolher plenamente cada pessoa, ou seja, Deus. A felicidade consistiria, então, não em acreditar na promessa desse amor, mas em encontrá-lo efetivamente. Enquanto permanecer apenas como uma ideia ou uma esperança fundada no testemunho de outros, ele continuará sujeito à dúvida. A plena satisfação só poderia ser encontrada no conhecimento deste Deus, cuja bondade não está sujeita às limitações e incertezas das relações humanas ordinárias.

Em resposta ao desespero que surge diante de tantas frustrações acumuladas e ao senso de desorientação que elas produzem, há aqueles que ensinam que o sofrimento nasce principalmente da ignorância, da confusão e da incapacidade de perceber a realidade com clareza. Eles veem na expansão da consciência o caminho mais seguro para superar a inquietação. O objetivo seria alcançar um conhecimento cada vez mais profundo de si mesmo e da realidade, até que a pessoa adquirisse uma compreensão tão lúcida da existência que já não pudesse sentir-se perdida nem enganada pelas aparências. A felicidade seria então identificada com uma forma de iluminação ou despertar da consciência.

Por fim, existem aqueles que desconfiam das próprias exigências do coração. Estes observam que o sofrimento surge sempre que esperamos das coisas mais do que elas podem oferecer. Talvez a inquietação não exista porque nos falta alguma coisa, mas porque insistimos em exigir da vida aquilo que ela jamais prometeu oferecer. Nesse caso, o caminho proposto consiste em examinar cuidadosamente as exigências do coração, compreendê-las, purificá-las e transcendê-las, até que a pessoa se torne livre de todas as falsas expectativas. A felicidade apareceria então como uma forma de liberdade interior, conquistada por meio do desapego, da serenidade e da reconciliação com a realidade, isto é, quando a pessoa se tornasse perfeitamente capaz de acolher a realidade tal como ela é.

Essas quatro atitudes fundamentais emergem naturalmente das inquietações do coração e, se quisermos dar um nome ao caráter (\textit{ethos}) associado a cada uma delas, poderíamos chamá-las de bondade, devoção, iluminação e liberdade. Contudo, ainda não meditamos o suficiente para decidir qual dessas respostas é verdadeira, nem mesmo se alguma delas o é plenamente. Embora as religiões e escolas de espiritualidade sejam frequentemente incompatíveis em termos de doutrinas e práticas, essas atitudes fundamentais não são necessariamente mutuamente exclusivas e podem ser assumidas simultaneamente. Nada impede, por exemplo, que alguém busque uma compreensão mais profunda de si mesmo, cultive uma relação de devoção, procure agir retamente e, ao mesmo tempo, exerça o desapego diante daquilo que não pode controlar.

Talvez a resposta mais adequada ao coração não se encontre numa única dessas possibilidades, mas numa combinação delas. Essa é precisamente uma das questões que ainda permanecem em aberto e que merecem investigação mais cuidadosa. Por enquanto, basta reconhecer que todas procuram responder, à sua maneira, às mesmas inquietações fundamentais do coração humano. Nos próximos passos desta investigação, será necessário examiná-las mais atentamente, compreender suas razões, suas práticas e suas promessas, para avaliar em que medida são capazes de satisfazer as exigências do coração.

Em todo caso, ao menos sabemos que o cultivo do caráter é condição necessária para realizar essa investigação, ou seja, uma mente aberta e vigilante, que não se deixa iludir nem se escravizar por nada.

Por fim, o princípio da ética é justamente essa atitude visceralmente humana. Não se trata de uma coleção de normas, de um sistema de conceitos ou de uma disputa de doutrinas, mas de um coração inquieto em busca de um coração bem-aventurado. Contudo, vislumbrar o caminho não é o mesmo que percorrê-lo. Tampouco alguém pode ser obrigado a fazê-lo. Cabe a cada um decidir livremente se permanecerá onde está ou se terá a coragem de seguir adiante, assumindo total responsabilidade pelas consequências.