Como se uma vida não bastasse
Uma das razões pelas quais algumas tradições espirituais acreditam na reencarnação pode estar enraizada no fato de que a nossa alma — mesmo a alma animal — possui uma amplidão, uma riqueza e uma vastidão tão profundas, e ao mesmo tempo uma intensidade tão grande de paixões, que elas não podem ser explicadas simplesmente como tendo origem na experiência sensível de um único indivíduo.
Quando observamos a nós mesmos, percebemos que existe em nós essa paixão fundamental chamada amor, assim como a sua complementar, o ódio. Dessas duas paixões brota toda a nossa sensação de bem e mal. Delas derivam também todas as demais paixões concupiscíveis: o desejo, o deleite, a aversão e a dor. Também nelas se misturam ainda paixões irascíveis como a esperança, o desespero, o medo, a audácia e até mesmo a ira. Tudo isso nasce dessa dinâmica profunda entre amor e ódio.
Mas, quando experimentamos verdadeiramente o que são esse amor e esse ódio presentes em nossa alma — e que, na verdade, orientam nossa relação com tudo o que existe — percebemos algo ainda mais misterioso. Temos essa experiência desde a infância. Às vezes, por exemplo, o pai apresenta uma comida à criança, e ela imediatamente diz: “Eu não gosto disso”. No entanto, o pai sabe que ela jamais provou aquilo antes. Então, de onde vem esse “não gostar”?
O mesmo acontece em inúmeras outras experiências da vida. Quando temos contato sensível com algo pela primeira vez, frequentemente sentimos imediatamente que amamos ou detestamos aquela experiência. Esta vida, por si só, não parece oferecer tempo suficiente para formar todas essas paixões em um nível tão vasto e intenso em relação a tudo o que existe e a toda experiência sensível possível neste cosmos, neste mundo, no que veio antes e no que ainda pode vir. A alma humana — mesmo no seu aspecto animal — possui uma amplidão imensa.
Existe, portanto, embutida em nossa alma — pelo menos enquanto estamos encarnados — uma imensa quantidade de informações afetivas e passionais que não parecem ter surgido apenas neste instante, nem no corpo de uma única vida. Talvez tenha sido isso que levou alguns filósofos a pensar: se nossas ações imprimem marcas, paixões e tendências em nossos sentimentos e em nossa sensibilidade, então isso talvez não possa ser o resultado de uma única vida.
Percebemos, assim, que nossa apreensão do universal não se dá apenas pela inteligência e pela inteligibilidade do ser — isto é, pelo fato de que tudo o que existe é inteligível e ilumina nossa inteligência desde o princípio do nosso ser. Existe também, ao menos no que diz respeito à encarnação, um amor e um ódio voltados para todas as coisas.
Contudo, diferentemente da inteligibilidade, que se apresenta a nós como uma notícia da existência de tudo — a qual é necessária e inerente à nossa própria essência divina — esse amor e esse ódio possuem natureza contingente. Ainda assim, eles já vêm junto com a nossa própria experiência da encarnação. Portanto, trata-se de algo que também se apresenta como universal, porque amor e ódio já existem aqui dentro com relação a tudo o que existe, porém eles são condicionados à nossa própria experiência humana individual.
O homem parece possuir, desde o início da vida, não apenas abertura intelectual ao universal, mas também uma espécie de orientação afetiva universal às coisas. A criança ama e odeia antes mesmo de possuir experiência suficiente para justificar esses afetos. Isso sugere que a alma já chega ao mundo “pré-orientada” passionalmente para o real por meio desse misterioso campo afetivo pré-reflexivo, desse abismo de paixões de ondem brotam as ondas que agitam a alma. Como paixões tão extensas podem emergir de uma experiência empírica extremamente limitada? Há uma desproporção entre a quantidade limitada de experiência sensível individual e a vastidão qualitativa das paixões humanas. Essa desproporção exige explicação. A própria estrutura experiencial da alma parece sugerir uma anterioridade, ou seja, a alma parece antiga — pelo menos tão antiga quanto o universo inteiro, pois parece já ter experimentado tudo e decidido julgar como boa ou má cada uma de todas as experiências passadas, presentes e imaginárias.
Portanto, psicologicamente, a alma parece maior do que sua biografia, e existencialmente, o ser humano é desproporcional ao tempo de uma vida, pois há em nós algo que excede a experiência individual.
Mas não pense que essa reflexão é mera especulação filosófica ou simples elaboração doutrinal. A percepção dessa situação concreta — isto é, a percepção do nosso próprio campo afetivo universal — revela a gravidade da tragédia existencial humana. É precisamente nesse campo afetivo, nesse abismo de paixões, que se encontra a verdadeira raiz dos erros e do sofrimento humano, pois é nele que se formam as piores ilusões acerca do próprio ser e da própria identidade.
Em geral, é fácil perceber que eu não sou meu corpo. Somente pessoas muito brutas ou extremamente desatentas ainda acreditam nisso. Mas essa ilusão é tão frágil quanto a casa de palha construída pelo porquinho mais novo, Cícero: o lobo mal a soprou pelos ares sem nenhum esforço. Para os brutos, se nada dissolver essa ilusão, a própria morte acabará prestando esse favor. Já para os desatentos, basta fazer uma pergunta simples: o que exatamente é isso que eu comemoro todos os anos no meu aniversário? Será do conjunto das partes desse corpo? Não, porque ele muda continuamente. Então, será a sua parte mais antiga? Não, porque o zigoto dura apenas 30 horas até a primeira mitose. Se você continuar fazendo perguntas dessa natureza, logo perceberá que não existe nada verdadeiramente estável nesse corpo que seja digno do pronome “eu”.
Então, Cícero, o caçula, corre para a casa de Heitor, o irmão do meio. A casa de madeira tem uma estrutura firme, obviamente muito mais estável que a casa de palha. Assim se parece o campo afetivo da alma: essa orientação universal das paixões parece oferecer uma base estável para viver bem, orientar a existência e alcançar uma felicidade nesse mundo protegida dos perigos. Mas essa estabilidade é apenas aparente.
Mais uma vez se iludem os irmãos porquinhos ao acreditarem que construíram algo indestrutível. Raramente alguém percebe que essas paixões profundas também estão sujeitas à mudança. Assim como quase ninguém percebe, ao longo de uma única vida humana, o lento movimento da precessão dos equinócios, também quase ninguém observa a dinâmica silenciosa pela qual esses amores e ódios universais se formam — e mais raramente ainda a dinâmica pela qual começam a se dissolver.
Por isso, não é apenas a formação desse campo afetivo que parece exigir muitas vidas. A própria dissolução das identificações passionais parece requerer um grau de atenção consciente que dificilmente poderia amadurecer plenamente em uma única vida humana.
Utilizando a linguagem de Santa Teresa de Ávila, aquilo que aparece como graça final das terceiras moradas — o desapego universal — consiste justamente em transcender esse amor e esse ódio já embutidos em tudo dentro de nós, sem permitir que nos perturbem, nos arrastem ou nos privem da paz. Ela mesma afirma categoricamente que, se alguém almeja alcançar aquelas graças mais elevadas, aquelas que vêm do centro do seu ser e que não se confundem com as coisas que existem na periferia da alma, estes deve compreender que não pode esperar alcançar tais graças nessa vida.
Além disso, o próprio Cristo afirma: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. Se alguém escuta essas palavras sem experimentar a mesma perplexidade de Nicodemos, talvez ainda não tenha compreendido a profundidade da tragédia existencial humana.
Some-se a isso o fato que nem Santa Teresa nem Jesus Cristo acreditavam em reencarnação. Tal é a intensidade da ação necessária para dissolver todas as ilusões resultantes desse ciclos de apego e falsa identificação. Mesmo que você não acredite em reencarnação, a prática espiritual acabará revelando que uma única vida — isto é, esta vida presente — parece insuficiente para desfazer todos os nós desse emaranhado no qual você se meteu.