Conhecer é reconhecer
"Só sei que nada sei." Essa frase, tão mal apreciada, expressa o drama da inteligência diante da amplidão do ser, submersa no abismo do desconhecido. É uma dor, mas sem desespero. Foi assim que Sócrates formulou sua perplexidade: como um paradoxo. Não se trata simplesmente de uma ignorância, mas de uma ignorância consciente. Assim como Sócrates, eu me encontrei profundamente perplexo diante do mistério da existência — e tive a coragem de não fugir dele. Fiz da perplexidade meu estado habitual. Por isso, minha perplexidade me deixou ainda mais perplexo, quando parei de meditar nela, e passei a contemplá-la.
Diante dessa condição — de ignorância consciente — surge uma nova possibilidade de conhecimento. Refiro-me a uma verdade fundamental inerente à própria natureza da inteligência e da inteligibilidade, a qual, à primeira vista, não é nada óbvia. Considerando minha evidente ignorância, parecerá inadmissível afirmar que a inteligibilidade é inerente ao ser, sobretudo para céticos e agnósticos. Se não sei nem o que está aqui debaixo do chão que estou pisando, como ouso fazer afirmações tão universais sobre a natureza de todas as coisas, inclusive das que desconheço? Não é sem razão que surgem esses questionamentos. Por isso, é conveniente aprofundar essa investigação sobre a inteligibilidade.
Para explicar isso melhor, preciso fazer algumas distinções quanto ao que eu quero dizer quando falo que conheço alguma coisa. O verbo conhecer e o substantivo conhecimento podem significar coisas diferentes, dependendo do contexto. Por exemplo, quando digo que “conheço o Eliézer” posso estar falando do homem que conheci ontem ou do meu irmão. Eu conjugo o mesmo verbo conhecer para falar de graus muito discrepantes de conhecimento, independentemente do nível de familiaridade que eu tenho com a pessoa ou coisa em questão. Em todo caso, conhecimento nada mais é do que uma forma de intimidade, a qual pode variar desde a mera notícia de que algo existe até a perfeita familiaridade com a coisa.
Além disso, para que eu conheça algo novo, é necessário que ele exista primeiro, caso contrário eu não poderia conhecê-lo. Em seguida, se eu quiser aprofundar esse conhecimento, primeiro preciso saber que a coisa existe. Então, para que eu conheça algo nesse sentido mais profundo (significando intimidade), existem essas duas condições necessárias:
- A coisa precisa existir;
- Eu preciso saber que a coisa existe.
Devo verificar como essas condições se aplicam à minha experiência cognitiva real e, a partir delas, se há razão suficiente para acreditar na inteligibilidade universal. Para isso, direi obviedades que, no entanto, parecerão vertiginosas para quem não está acostumado a prestar atenção nelas. Falo por experiência própria. Ora, tudo o que existe, existe agora. Isso satisfaz a primeira condição para que eu conheça todas as coisas. Além disso, eu sei que tudo o que existe, existe agora — o que satisfaz a segunda condição. Logo, eu posso afirmar com certeza que o ser é universalmente inteligível, pois, de algum modo, eu já fui apresentado a tudo o que existe, apesar de não ter intimidade com nada.
Mas como é que posso saber que tudo existe agora, inclusive aquilo que nunca vi, que jamais esteve diante de mim? Não sei como, mas sei que esse conhecimento não veio por meio dos sentidos, nem da imaginação, nem de nenhum órgão corporal. Nesta vida, nunca estive em galáxias remotas, nem visitei as profundezas do oceano, tampouco tive experiência sensível dos seres em escalas microscópicas ou cósmicas. Ainda que eu tivesse tantos bilhões de anos quanto a idade do universo, não poderia ter visto, com os olhos, tudo o que sei que existe agora.
Acrescente-se à minha perplexidade o fato de que esse conhecimento é tal que não posso dizer quando ele começou. Na verdade, jamais houve um único momento da minha existência consciente que eu não soubesse disso: que tudo existe agora. Não quer dizer que eu prestava atenção nisso, mas sim que esse conhecimento sempre foi pressuposto em toda a minha experiência cognitiva.
Portanto, fica evidente que a inteligibilidade não depende dos sentidos corporais, nem está limitada ao conhecimento do mundo sensível. Há ideias, essências e princípios que jamais me foram apresentados pelos sentidos, mas eu sei que existem. São coisas que não se veem com os olhos nem se ouvem com os ouvidos. A presença total do ser se apresenta como um grande mistério — às vezes divertido, às vezes desagradável, às vezes assustador... Mas ele existe com densidade e complexidade para além da minha intimidade com ele. Essa perplexidade pode vir acompanhada tanto de espanto quanto de encantamento. Mas em ambos os casos, ela revela algo essencial da minha inteligência.
Essa consciência me convida a repensar a minha própria natureza, o que é isso que eu sou. Não posso reduzi-la ao que me é dado pelo corpo nem pela mente. Esse saber — de que tudo existe — é algo que eu sempre soube. É diferente de saber formulado, de saber dito ou de saber refletido. É um saber vivido, pressentido, presente desde sempre.
Talvez isso ajude a explicar a perplexidade de Sócrates. Ele sabe que tudo existe, mas não sabe o que cada coisa é. Essa consciência revela a profundidade do ato de conhecer — um ato que, em sua raiz, nos conecta com todas as coisas. Essa conexão não é mediada pelo tempo nem pelo espaço; é instantânea, mais rápida que a velocidade da luz, pois atravessa o universo inteiro num único gesto do espírito. Que energia é capaz de tamanha dinâmica? Ou, quem sabe, não se trate de um movimento através do universo — e das demais dimensões do ser — mas talvez essa conexão esteja já presente em tudo, desde o fundamento do seu ser, assim como tudo já está presente a mim. Diante disso, a doutrina platônica da reminiscência parece plausível, pois conhecer é semelhante a recordar-se. Sócrates usa a imagem da reminiscência como um símbolo para isso: lembrar é trazer à consciência algo que já foi apresentado. E tudo que existe agora, de algum modo, já me foi apresentado. Esse é o grande mistério.