Zétesis

Descobrindo o sentido da vida pelo autoconhecimento

A filosofia perene diz que a felicidade se encontra na “contemplação da verdade por meio da virtude da sabedoria.” A Igreja Católica diz que a verdadeira felicidade é “conhecer e amar a Deus.” Embora eu sempre quisesse ser feliz, não posso dizer que tudo o que eu fiz foi querendo a sabedoria ou Deus. Por que razão essa seria a causa final das minhas ações, se nada do que eu fiz tinha em vista esse fim?

Não é que eu não dê crédito ao que dizem os sábios e os santos. É simplesmente uma questão de não ter consciência do que eles estão contemplando para poder dizer algo tão extraordinário. Eu não faço ideia do que essas coisas são de verdade, nem sou capaz de amar o que não conheço. Quando eu era ateu, eu não queria saber de Deus. Quando eu era crente, mas preferia o pecado, eu também não queria saber de Deus. Hoje, eu estou mais desiludido quanto ao que achava que me faria feliz, mas nem por isso posso dizer que sei o que vai me satisfazer com toda a certeza.

Será que posso descobrir o que vai me fazer feliz de verdade investigando a minha própria natureza, isto é, conhecendo a mim mesmo? Se os sábios e os santos estão certos quanto a essa causa final, então deve existir uma aspiração profunda em todas as minhas ações 一 inclusive nos meus erros e pecados 一 cuja satisfação se dê plenamente na sabedoria e em Deus. Para responder a essa indagação, eu preciso fazer um exame geral de consciência, considerar todos os meus atos, e verificar qual é a aspiração comum em todos eles. Sobretudo, devo verificar onde estava minha maior expectativa de satisfação. Em outras palavras, o que eu mais amava e o que eu mais queria em todas as minhas ações?

Eu me lembro de que o objeto do meu amor foi mudando ao longo da minha vida. Às vezes, me desapaixonei por uma coisa e me apaixonei por outra simplesmente porque esta me pareceu mais interessante. Outras vezes, eu me decepcionei profundamente, apesar de ter amado tanto. Considerando as minhas experiências, é evidente que essa aspiração profunda não se refere propriamente ao objeto do meu amor. Se não é o que eu mais queria na vida, então o que é? O que todas as minhas ações têm em comum é apenas o fato de que eu amava algo, isto é, eu queria intensamente uma coisa mais do que todas as outras. Portanto, minha primeira conclusão é que a minha aspiração profunda não se revela inicialmente no meu bem-amado, mas na forma do meu amor pelo bem-amado.

Essa forma de amor é dinâmica. Ela sempre pode crescer em intensidade, mesmo na ausência do bem-amado. Se não tenho o bem-amado, tudo eu faço para obtê-lo. Se o tenho agora, tudo faço para não perdê-lo. Se me afasto dele, tudo eu faço para retornar. As frustrações que daí seguiram nada mais são do que a inadequação da expectativa de satisfação criada pela intensidade do amor em relação ao bem-amado. Amei demais o que não merecia tanto, e isso me fez mal.

Algumas vezes, porém, esse amor pareceu transcender o bem-amado. Por exemplo, quando eu gostava muito de uma coisa, eu queria saber quem fazia aquilo, como era feito e por que razões fazia. Em suma, queria saber tudo daquilo e das condições necessárias para aquilo existir. Também me lembro de que meus pais me deram muitos presentes, coisas que, na infância, eu queria muito, mas hoje eu amo mais meus pais do que aquelas coisas. Quando eu ganho um presente, o amor sempre transborda para quem me deu o presente. Por algum motivo, esse amor transcendente nunca me frustrou, diferente do outro que permanece limitado.

Meditando sobre as transformações do meu bem-amado, as quais resultaram em alegria e tristeza, agora eu consigo ver claramente a direção para onde minha vida está caminhando. A forma do amor, que está no âmago do meu ser, parece estar me convidando ao amor transcendente. Portanto, se eu quiser seguir esse caminho, para ser plenamente feliz, preciso descobrir qual é a coisa mais adequada para receber essa forma de amor 一 o mais amável entre os bem-amados 一 e, com relação às demais coisas, preciso moderar os meus afetos para não me frustrar de novo. É exatamente por essa razão que a filosofia se desenvolve pela prática das virtudes morais (para moderar os afetos) e das virtudes intelectuais (para aperfeiçoar a capacidade de conhecer). Pelo mesmo motivo, a religião se desenvolve pela ascese e pela mística.

Afinal, o que será o mais amável entre os bem-amados? Deve ser o que há de mais transcendente dentre todos os objetos do meu amor. Uma atitude contemplativa em relação a todas as coisas não pode ser frustrada por nada, pois ela compreende atenção e amor a tudo o que existe. Se meu bem-amado é tudo o que existe, ele pode ainda transcender mais uma vez para, além das coisas amadas, buscar a razão de ser de todas elas. Em meio a essa enorme diversidade de seres na natureza, o que eles têm em comum é simplesmente o fato de existirem. Portanto, essa atitude contemplativa contém em si mesma a aspiração do amor transcendente que busca conhecer os fundamentos do ser. É isso que os sábios chamam de contemplação da verdade e os santos chamam de Deus. Além disso, não há mais nada para desejar, pois isso abrange tudo.