Zétesis

Entre a Terra e a Lua

O Conto da Princesa Kaguya expressa com rara delicadeza a relação entre beleza, impermanência e sofrimento. O filme, dirigido por Isao Takahata e produzido pelo Studio Ghibli, é inspirado no antigo Taketori Monogatari, uma das narrativas fundadoras da literatura japonesa. A história conta a vida de Kaguya-hime, uma misteriosa menina encontrada dentro de um caule de bambu luminoso por um velho cortador de bambu e sua esposa, que passam a criá-la como se fosse sua própria filha.

Durante a infância, Kaguya vive de maneira simples e espontânea no campo. Cresce em meio à natureza, cercada pelos amigos, pelos animais, pelas flores e pela liberdade da vida rural. Sua alegria parece brotar naturalmente dessas experiências: correr descalça pelos campos, sentir o vento, contemplar as flores silvestres, brincar livremente entre sapos, grilos e pequenos animais. Mesmo as durezas e perigos daquela vida parecem leves diante da intensidade afetiva que a sustenta.

Mas tudo muda quando seu pai encontra, entre os bambus, novos prodígios: primeiro ouro; depois, vestes preciosas dignas da realeza. Convencido de que aquilo representa um sinal dos céus sobre o verdadeiro destino da menina, ele decide levá-la para a capital e educá-la como uma nobre princesa.

A partir desse momento, a vida de Kaguya entra em crise. A vida palaciana sufoca aquilo que nela havia de mais vivo. A corte exige disciplina, etiqueta e conformidade. Seu pai sente que essa mudança é uma bênção dos céus, mas, para Kaguya, tudo isso é experimentado como afastamento. De repente, ela se vê arrancada do campo, dos amigos, da natureza e daquela liberdade espontânea que ela tanto amava.

A obra não trata apenas de uma mudança de condição social, mas de uma ruptura mais profunda entre a alma e o horizonte afetivo no qual ela havia aprendido a existir. O drama de Kaguya sugere que o sofrimento humano não nasce apenas da impermanência das coisas, mas da tentativa de fundar a felicidade sobre aquilo que, por natureza, está sujeito à mudança.

Por fim, no auge do seu sofrimento, a princesa se lembra da sua verdadeira origem: a Lua. Aqui se revela um contraste enorme entre os habitantes da Terra e da Lua. Assim como a própria Lua, seus habitantes parecem possuir uma serenidade distante do sofrimento terrestre. São serenos, mas distantes. São iluminados — mas sem luz própria, tal como a Lua. Num momento de desespero, ela deseja ser levada de volta.

Porém, a pobre princesa logo se arrepende, porque se lembra de que tampouco encontrava satisfação lá, pois, ainda na Lua, já sentia uma atração inexplicável pela beleza da vida terrestre. Então, quando chega o momento de partir, hesita em voltar. No fundo, a princesa sabe que toda a experiência desta vida é passageira, mas ela ainda deseja experimentar tudo mais uma vez. Mesmo quando colocam à força sobre ela o manto do esquecimento, a felicidade não surge.

A memória desaparece, mas o sentimento continua.

Quando retorna à Lua, mesmo tendo suas lembranças apagadas, ela ainda olha para trás, porque a experiência da vida deixa marcas mais profundas que a simples memória. Assim, o filme termina como o retrato de uma tensão entre transcendência e afetividade, uma tensão profundamente humana, mas sem dissolvê-la nem oferecer uma reconciliação definitiva. Seu grande mérito está justamente em expressar esse dilema com sinceridade e beleza.