Zétesis

Minha essência é idêntica à do Cristo, mas minha vida não

Desde o início da tradição bíblica, a relação entre o ser humano e Deus é apresentada como algo mais profundo do que mera criação. No Gênesis, lemos que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”; e em outros textos, que ele o criou “um pouco abaixo dos anjos” — ou, segundo algumas leituras, “dos deuses” ou “de Deus”. Já nos Salmos, ecoados por Cristo, ouve-se a afirmação ousada: “Vós sois deuses.” O próprio Jesus jamais recuou diante da frase que resume o mistério de Deus revelado a Moisés: “Eu sou o que sou.” Essa fórmula ressoa profundamente com a sentença vedântica: “Este ātman é o Brahman”. Ambas apontam para a identidade entre eu e o Ser absoluto.

Na tradição védica, encontramos diversas formulações sobre a relação entre a alma (ātman) e o Ser eterno (Brahman). Embora haja relativa concordância quanto à natureza do ātman e do Brahman — ambos concebidos como eternos, conscientes e reais — as escolas divergem quanto à natureza dessa união. Algumas afirmam a identidade plena entre alma e Ser, outras preservam a distinção ontológica, defendendo uma união essencial mas não identidade absoluta. Outras ainda veem essa relação como dependente da graça, ou expressa em termos de amor devocional. Contudo, o ponto constante é o mesmo: o mistério da união entre a alma e o Ser eterno, vivido em múltiplos níveis — ontológico, moral, devocional e contemplativo.

O cristianismo ortodoxo, embora não dividido em escolas formais como o Vedānta, contempla esses diversos níveis de relação no interior de sua própria teologia e espiritualidade. Em Cristo, vemos sintetizadas todas essas dimensões. Ele é, ao mesmo tempo, imagem perfeita de Deus, Filho eterno consubstancial ao Pai, e ser humano real — um de nós. Se Cristo, sendo plenamente homem, é capaz de dizer “Eu sou o que sou”, e se sua alma não difere essencialmente da minha, o que me impede de dizer o mesmo? Talvez o mistério cristão esteja precisamente aí: não na identidade absoluta entre eu e Deus, mas na possibilidade real de uma vida humana totalmente transparente à luz do Ser — uma vida que se lembra de sua origem, de sua vocação, de sua essência.

Se a diferença entre mim e Cristo não é de essência, mas de estado, então o que eu sou — na raiz do meu ser — é idêntico ao “Eu Sou”; mas enquanto me vejo como composto de forma e matéria, minha vida é apenas uma imagem. Contudo, é uma imagem tal que pode tornar-se tão unida a Deus já não se distingue a ação divina da ação da própria alma.

Minha alma é essencialmente idêntica à do Cristo; mas minha vida, não. A vida dele revela uma possibilidade para a minha — e, ao revelá-la, recorda-me o que eu sou. Pois uma vida que, por si só, não encontra fundamento em si mesma, ainda que seja real, dificilmente encontraria em si a graça do reflexo, se não fosse por esse espelho perfeito: Cristo, imagem visível do Deus invisível, ícone do Ser eterno encarnado.