O mistério da liberdade na cruz
Nada me revela com tanta nitidez o ato de amor eterno presente na criação do mundo quanto a Paixão de Cristo. Talvez soe contraditório, visto que paixão é o oposto de ação, assim como morte é o oposto de vida, e destruição é o oposto de criação. Mas, nesse contexto, trata-se de um homem que voluntariamente aceita seu destino como ser humano vivendo entre outros seres humanos. Falo de destino por falta de um termo melhor, porque não se trata de um fim determinado, mas de todas as possibilidades em aberto. Na melhor das hipóteses, as ações humanas podem ser estimadas com base em suas disposições habituais, mas jamais determinadas a priori. O homem é um ser livre, e ser livre significa poder agir independentemente de quaisquer disposições habituais. Portanto, aceitar voluntariamente seu destino entre os homens significa aceitar tudo o que pode lhe acontecer, incluindo a maldade, ainda que ela não esteja determinada desde o princípio, mas pode sempre tornar-se atual pela livre iniciativa humana — e frequentemente torna-se.
— "Não compreendes que tenho poder para te soltar ou para te crucificar?" pergunta Pilatos.
— "Nenhum poder terias sobre mim se do alto não te fosse dado."
Esse "alto" não se refere a César, mas à própria causa do ser humano que o formou com o dom da liberdade para pensar e agir como quisesse. Então, sim! Jesus reconhece que Pilatos tem poder, mas o entende sob uma perspectiva mais profunda, que escapou ao próprio Pilatos. Ele percebe seu poder como governador da Judeia, mas Jesus o percebe na raiz do seu próprio ser, isto é, enquanto ser humano constituído para ser livre, para querer e agir independentemente de César, dos judeus ou de qualquer outra força externa que não seja ele mesmo. Porém, agindo segundo as pressões externas, Pilatos parece mais um escravo da circunstância, ao passo que Jesus, submetendo-se voluntariamente ao seu destino, age com máxima liberdade, ou seja, como verdadeiro rei.
A Paixão de Cristo é, na verdade, o ato de um ser humano livre, que reconhece essa mesma liberdade nos seus semelhantes, que vai ainda até a causa mesma dessa liberdade, e contemplando-a encontra nela o ato de amor eterno, de paciência e de bondade ilimitadas. Assim, ele submete-se à vontade do Pai até as últimas consequências, e daí surge algo extraordinário: a vontade humana se une à vontade divina e esse ato se torna uma nova imagem daquele ato criador que livremente constituiu o homem para ser livre. Um ato tão profundamente identificado é também o próprio ato divino encarnado. O Ser Eterno age como causa direta de um novo fato histórico diante dos nossos olhos. Assim, a Paixão de Cristo é tanto uma nova imagem quanto um novo ato criador da humanidade.
"Naquele momento, o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo."
Por meio da sua Paixão, agora podemos contemplar o ato de amor eterno que estava implicado desde o princípio do mundo. Tudo vem dele que, pela sua própria natureza, se atualiza eternamente em todos os momentos, inclusive nos momentos mais trágicos. A novidade não está nesse ato, mas no fato de agora podermos contemplá-lo sem véu e unirmo-nos a ele com plena consciência. Assim, posso afirmar, com São João Paulo II, que "o amor me explicou tudo." A explicação é tudo o que está implicado na Paixão, seus pressupostos e suas consequências.
Quem busca os sinais de Deus e quem busca a sabedoria, cedo ou tarde, acaba se deparando com a cruz. Inevitavelmente, quando a realidade nos obriga a saber dessa crueldade toda ou até sofrê-la, ela nos escandaliza e nos enlouquece, pois nossas disposições habituais se revoltam profundamente contra ela. Há crimes tão hediondos que nossa ira transborda além do ato praticado para a própria possibilidade dele. Então, tomamos todas as medidas para que isso jamais se repita, abrimos inquérito contra os suspeitos e punimos todos os culpados. Às vezes, a revolta é tanta que até Deus é intimado para depor e quase sempre é condenado como cúmplice. Então, o ódio contra um crime se transforma facilmente numa revolta contra toda a realidade.
A cruz é a gramática do cosmos, ela é a estrutura mesma da realidade. Nas quatro extremidades da cruz estão os dois polos dialéticos em torno dos quais se desenrolam todas as tragédias — a liberdade humana versus a liberdade divina e o ser contingente versus o ser eterno — e no centro dela está o Cristo Crucificado, que é a síntese de tudo. A cruz é a realidade tão visceral que é impossível ser indiferente a ela, assim como é impossível eu ser indiferente à minha própria existência. Diante dela só há duas respostas possíveis: a resposta de Dimas ou a resposta de Gestas. Apesar das minhas disposições habituais, nada me obriga a escolher uma ou outra. Portanto, essa resposta à cruz — que no fundo é uma resposta ao ser — é o ato mais intenso que um ser humano pode fazer, pois nele está toda a sua consciência, liberdade e responsabilidade.