Sobre a leitura de obras filosóficas
Lendo o De Anima, de Aristóteles, percebo uma diferença marcante em relação a Platão. Enquanto o formato dialógico de Platão torna a leitura fácil, o texto de Aristóteles é denso. Cada palavra carrega, de modo implícito, toda uma rede de tese, antítese e síntese. Cada termo parece supor a leitura de muitos livros, o diálogo com muitos sábios, a reflexão paciente e talvez até a inspiração de uma loucura divina.
Se não for iniciado um novo diálogo a partir do texto, ele permanece parado, morto, sem dizer nada. Aliás, ao pensar nisso, lembro-me da história de Amon e Thoth, contada por Sócrates no Fedro. O texto tem apenas a aparência de estar vivo. Enquanto o lemos, parece que o autor conversa conosco. Mas é apenas uma impressão: quando surge uma dúvida, ele se cala. Se o interrogarmos, só pode repetir o que já foi dito. Se o leitor não for acompanhado por um mestre vivo, ou se não tiver engenho para a leitura meditativa, em suma, se ele mesmo não fizer o processo dialético, não é possível avançar em filosofia.
Talvez a dialética seja a técnica de leitura filosófica por excelência — embora mais justo seria chamá-la não de técnica de leitura, mas de técnica de investigação. Ler simplesmente por ler envolve apenas decodificar e memorizar informação. A dialética, porém, é ativa num outro sentido: ela ultrapassa o que foi lido e toca justamente no que não foi compreendido.
De onde vem essa dinâmica da incompreensão? A dúvida só pode surgir num universo interior de certezas e sentimentos. O que é claro para um pode ser obscuro para outro. Alguém pode se enganar pensando que entendeu; outro, mais atento e sincero, pode confessar que nada compreendeu. Assim opera a dialética: um caminho de atenção ao outro e a si mesmo, na busca da verdade.
Sócrates acreditava que era isso mesmo que nos torna felizes: examinar nossas vidas, purificar-nos das falsas certezas, conversar sobre a virtude, a verdade, o bem, a beleza. Tudo porém com máxima consciência, sem negligência, sem fingir que sabe. Conhecendo os próprios limites, mas sem perder a esperança, espera-se a inspiração divina. Essa esperança ativa diante do mistério vale mais do que enganar-se. Ainda que, no fim, nossa sabedoria se resuma à consciência da própria ignorância.
É assim que me sinto diante de Platão, de Aristóteles e de todos os filósofos que li. A diferença, talvez, esteja nisto: Platão me ensina a dialogar; os demais supõem que eu já sei. Se eu mesmo não iniciar o processo dialético com eles, não avanço. Mas como dialogar com um autor ausente? Voltamos ao problema de Thoth e Amon. Só me resta meditar, imaginar hipóteses do que ele poderia ter dito, querido dizer ou respondido. Mas essa imaginação já é incerta em seus efeitos — será que consigo imaginar com precisão a abordagem correta? Serei criativo o bastante para conceber múltiplas respostas possíveis?
Para errar menos na meditação, é conveniente ter um mestre e muitos amigos filósofos interessados no mesmo assunto. Como diz o ditado, "duas cabeças pensam melhor que uma". Infelizmente, não encontro ninguém para conversar sobre essas coisas. Sócrates era mais bem-aventurado, pois todo dia encontrava alguém para conversar. Hoje, porém, raramente alguém se dispõe a manter uma conversação sobre o que realmente importa para a vida humana. Às vezes tocam num assunto essencial, mas logo fogem dele, correndo atrás das banalidades do cotidiano. Então, sinto-me como Diógenes, perambulando pelo mercado com uma lamparina acesa em pleno dia à procura de um ser humano. Não encontro — mas nem por isso perco a esperança.
No fim das contas, não se trata apenas de saber o que o autor quis dizer, mas de buscar a verdade. Contudo, compreender o autor com máxima precisão é um ato de justiça — e também um passo decisivo na dialética. A riqueza do pensamento do outro pode ajudar-nos não só a vislumbrar a verdade, mas a compreender o próprio problema e as dificuldades envolvidas no conhecer. Como nos lembra o Padre Sertillanges: tudo importa — inclusive os erros dos sábios.