Zétesis

Subida ao Monte Horebe

Sou testemunha da eternidade e, por causa disso, sou uma testemunha eterna. Essa é a síntese das minhas últimas reflexões sobre o intelecto ativo e sobre o mundo das ideias. Porém, para que a essência do ser seja de fato inteligível para mim, também é necessário que exista um outro ato distinto do intelecto ativo pessoal bem como distinto da essência inteligível. A razão que me permite vislumbrar esse outro ato está no fato de que meu conhecimento é apenas potencial ou, quando em ato, é apenas contingente. Esse conhecimento, que Aristóteles chamou de intelecto passivo, depende de uma causa eficiente para atualizar-se. Essa causa eficiente é o intelecto ativo, o qual, por sua própria natureza, não pode ser um ato contingente, portanto, é um ato eterno.

Em geral, as pessoas não se aprofundam nesses conceitos e distinções. Mas, no dia a dia, falam de inteligência nesses dois sentidos. Dizemos que uma pessoa é inteligente quando ela sabe muito sobre um assunto, sobretudo se for um assunto difícil de dominar. Também falamos de inteligência no sentido de ser capaz de aprender. Nesse último sentido, todo ser humano é inteligente. Naquele primeiro, nem todos. Infelizmente, são poucos os que realizam todo seu potencial humano, apesar de serem tão capazes.

Então, por que esse conhecimento possível é apenas contingente no homem, se ele, pela própria essência, é tão capaz de conhecer todas as coisas? Poderíamos apresentar algumas razões naturais como, por exemplo, alguma deficiência corporal, sensorial, neurológica, ou mental, as quais podem impor sérias limitações cognitivas aos que sofrem delas. Porém, existe um problema ainda mais profundo, e mais grave, que não pode ser explicado por essas deficiências naturais. Não são só os "deficientes" que são ignorantes, mas também os "sãos".

Isso nos põe em xeque diante de um aparente paradoxo. Por um lado, o intelecto ativo é capaz de conhecer todas as coisas. Por outro, o intelecto ativo não intelige imediatamente todas as essências inteligíveis. Portanto, a inteligibilidade do ser, para ser uma potência real de conhecimento, exige um outro ato eterno capaz de apresentar o inteligível ao meu intelecto ativo. Ele é como a luz em relação a visão. Para que o visível em potência seja visto em ato, não me basta ter uma visão perfeita, é necessário que a luz o ilumine diante dos meus olhos.

Portanto, é necessário distinguir esses dois atos: a causa eficiente da intelecção, que é o intelecto ativo, e a causa eficiente da apresentação do inteligível ao intelecto ativo. Eu chamo esse ato de "outro ato" porque ele não sou eu. Se esse ato fosse simplesmente meu próprio intelecto ativo, ou qualquer outra ação propriamente minha, eu precisaria saber como apresentar o inteligível ao meu próprio intelecto ativo, ou seja, eu precisaria saber antes de saber, o que é um absurdo. Além disso, esse ato, por analogia, é o que ensina, enquanto eu sou o que aprende. Naturalmente, o mestre é maior que o discípulo. Logo, eu não sou ele. Eu sou apenas causa eficiente da inteleção. Ele é causa eficiente da iluminação. Sou em quem vejo, mas é ele quem ilumina.

Mas esse meu conhecimento — do que sou e do que tudo é — não deixa de ser contingente. Ainda que minha essência permaneça vinculada ao eterno, meu saber é sempre recebido, nunca possuído em plenitude. Aquilo que essencialmente sou está sempre aberto, em silêncio e disponibilidade, à luz e à graça daquele que é o Eterno Pedagogo — o Mestre Interior, o Logos, que tudo conhece e tudo sustenta em seu ato de saber.

Ele é a fonte suprema de toda potência inteligível. O Eterno Pedagogo é, pois, o princípio fundamental do ser: criador do mundo, ordenador do cosmos, e luz eterna.

Ele não se limita a me apresentar o inteligível, mas ele também me apresenta a mim mesmo e, no mesmo ato, apresenta-se a si mesmo como inteligível para mim. É por isso que posso recebê-lo — não como algo exterior a mim, mas como um divino hóspede no centro mais profundo do meu ser. Ele é, ao mesmo tempo, a luz e o iluminado.

Contudo, esse conhecimento de mim mesmo, embora fundado em uma inteligência cuja raiz é eterna, exige mediação. Requer um espelho no qual a própria luz possa se refletir. Esse espelho me é dado pelo próprio Pedagogo, ao criar esta alma animal no mundo. O corpo, inserido no tecido cósmico de seres contingentes e formas passageiras, torna-se sede de uma alma viva. Essa alma criada — vivente e sensível — torna-se, por dom, um espelho. Por meio dela, que sou — ao mesmo tempo — espírito eterno e criatura animada, posso contemplar, com assombro, aquilo que realmente sou. A imagem que reflete nesse espelho é a imagem de Deus.

No início desse texto, eu disse que sou a testemunha eterna. Mas agora eu digo que sou essencialmente um discípulo devoto. Eis minha verdadeira natureza. Porque não se trata apenas de conhecer, mas também de amar o que se conhece. Esse discípulo — embora devoto — não é, em sua essência, um ser contingente. Não é fruto de um ato qualquer no tempo. É, antes, um ato eterno. Sou um deus — mas não sou o Deus. Sou um que sou — mas não sou o EU SOU.

Quando me aproximo da luz que brilha no alto do Monte Horebe, vejo que ela também é fogo. Assim se dá quando o Mestre Interior, o Eterno Pedagogo, realiza sua ação pela graça: apresenta o inteligível ao meu intelecto ativo, para que eu conheça. E, conhecendo, brota a possibilidade de amar aquilo que é inteligível. Isso revela que o ser não é apenas essencialmente inteligível, mas também essencialmente amável.

O fato de ser inteligível não significa que já o conheço em ato. Do mesmo modo, o fato de ser amável não significa que já o amo em ato. Amar é um ato meu — e só pode seguir o conhecimento. Pois ninguém ama o que não conhece.

Ele apresenta, pois, o inteligível ao meu intelecto ativo. Mas, sendo ele mesmo o inteligível por excelência, apresenta-se como causa primeira da apresentação — e como causa primeira da iniciação. Assim, ele me oferece a oportunidade de conhecê-lo e, em seguida, de amá-lo livremente. Primeiro, a visão. Depois, o amor. Ainda que esse conhecimento e esse amor sejam contingentes, ou sejam ainda mera potência, isso não muda o que sou. Ele mesmo diz: "Vós sois deuses."

Mas eu só soube disso por meio deste espelho, dessa alma animal que me foi dada. Pois não me encarnei por mim mesmo — eu fui encarnado. Esta alma contingente, este corpo, esta mente — unidos nessa vida animal — são a vestidura visível de algo eterno. E, por meio dessas faculdades animais, posso não apenas me ver no espelho, mas também desejar expor-me ao mundo, às formas materiais, e nelas reconhecer os ecos da eternidade. Portanto, a encarnação é um ato pedagógico do Eterno Pedagogo. Por meio do sensível posso contemplar as essências eternas e vislumbrar a própria causa dessa encarnação — que não sou eu.

Como ensina a fé cristã: "O Logos se fez carne e habitou entre nós." No meu caso, não sou o Logos que se fez carne, mas fui feito carne pelo Logos, como quem recebe a graça da iniciação. Uma iniciação primeira: aquela que me mostra, por meio da contingência, a oportunidade de conhecê-lo. E, conhecendo-o, de amá-lo. E, amando-o, de me unir a ele.

Tudo o que me acontece revela esse eterno que está oculto sob o véu de todas as coisas — nele, eu mesmo me revejo. E, mesmo unido a ele desde a origem, sou também livre para reconhecer, ou não, a sua presença.

Como não amá-lo?

Eis a tragédia humana. É sempre possível ver e, ainda assim, rejeitar. É sempre possível conhecer e odiar. Mas, ao contemplar tudo isso — minha origem, minha natureza, meu fim — descubro que minha essência, embora não seja o próprio Deus, também não é pouca coisa. Sou um deus — mesmo que eternamente dependente de Deus. Nada do que é contingente pode alterar o que sou. Mesmo que tudo se perca no dia da minha morte, perder-se-á apenas o que é transitório. A essência subsiste. Tudo o que for perdido poderá ser restabelecido. Se será ou não, é outra questão. Mas o que sou — isso não muda.

E como não amá-lo, ao menos com uma gratidão contingente?

Se eu pudesse conservar apenas duas coisas na morte, não escolheria o corpo, nem a mente — mas o conhecimento dele e a gratidão por tê-lo conhecido. Pois foi por meio da sua graça que vi a mim mesmo. E, vendo-me, percebi-me como imagem dele. É por isso que sou grato: por ter conhecido, contingentemente, aquilo que eternamente eu sou.

Sou, portanto, essencialmente, um discípulo devoto: sempre aberto ao Conhecedor, sempre disponível à Verdade. E é nesse ponto que a metafísica se transfigura em mística. O ser humano necessita da metafísica — mas não apenas dela. Pois conhecer não basta. É necessário amar. A razão exige devoção. A filosofia exige mística. O intelecto brilha como a luz — mas, ao nos aproximarmos da fonte primeira dessa luz, descobrimos que ela é também fogo que aquece.

Eis a verdadeira subida ao Monte Horebe, onde Deus se revela como eu, e me revela como ele. Por isso Santa Tereza escreve nas Moradas do Castelo Interior: "Se não conhecermos a Deus, jamais chegaremos a nos conhecer". E aí está a grande intuição: a intelecção do que sou, do que posso me tornar, do que todo ser humano é, e do que todo ser humano pode vir a ser.

E como não amar esse Deus? E, semelhante a isso, como não amar esse ser humano? Como não desejar que ele seja liberto da ilusão? Como não desejar que todos conheçam — e amem — essa verdade? Pois, no alto do Monte Horebe, está a revelação do eterno — e com ela, as duas Tábuas da Lei: o amor a Deus e o amor ao próximo, isto é, o salto definitivo da metafísica para a mística, e da metafísica para a ética.